sábado, junho 24, 2006

Imagens de Viseu (20/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

BIBLIOGRAFIA

OLIVEIRA BERARDO - Noticia ou memoria descriptiva da Cidade de Viseu (Manuscr.).

SÉRGIO DE CASTRO - Camilo Castelo Branco.

ALBERTO PIMENTEL - Notas sobre o Amor de Perdição.

DIEULAFOY - Espagne et Portugal.

ALEXANDRE HERCULANO - Historia de Portugal.

PINHO LEAL - Dicionário.

MANOEL BOTELHO RIBEIRO - Dialogos, moraes, historicos e politicos.

RACZYNSKI - Les arts en Portugal.

Guia de Portugal- 2. o vol.

Imagens de Viseu (19/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XVIII - O «Calvário» e as Mãos da Virgem




Da série notabilíssima dos quadros de Vasco Fernandes é êste, sem dúvida, como composição e sentimento dramático, o mais impressionante de todos.

José de Figueiredo, num artigo sôbre pintura primitiva portuguêsa publicado na Lusitania diz:

«Vasco Fernandes, tem, no Calvário do Museu de Viseu, uma das mais belas páginas decorativas que conhecemos do seu tempo».

Assim é, com efeito.

No grande retábulo, que não contando a predéla, é quadrado, medindo quási dois metros e meio de lado, estão representadas 25 personagens, numa admirável distribuição e composição, sem se amontoarem, e sem se prejudicarem umas às outras, antes, tirando-se o máximo efeito decorativo dos diversos agrupamentos.

Uma emoção inenarrável sugere a contemplação dêste quadro, desde a figura de Cristo, inerte na Cruz, até ao grupo das Santas Mulheres que rodeiam a Virgem.

Nunca vi representada uma atitude de mãos, como as desta Virgem, que melhor traduzisse a dôr e a resignação, o desfalecimento e a amargura !

M.me Marguerite de Meignen, a ilustre Presidente da Schola Cantorum de Nantes, a quem se deve a reprodução dêste famoso retábulo na capa do programa dos concertos realizados em Nantes em 1924, e dirigidos, ao tempo, pelo grande e saudoso músico português Francisco de Lacerda - pour faire un hommage à ce celébre artiste et à son Pays - como ela gentilmente me dizia ao pedir-me a reprodução do «Calvário» , acrescentava entusiasmada, depois de a ter recebido:
«Oui! ce «Calvaire» est admirable! quelque chose me frappe particuliérement ! L 'expression « douloureuse» des mains de la Vierge, que je trouve extraordinaire ! »

A expressão dolorosa das mãos da Virgem e a expressão resignada da figura de Cristo atingem, nêste quadro, a expressão máxima do sentimento dramático.

Mas, são ainda dignas de nota:

A figura de Longuinhos, montado num cavalo banco, estupefacto perante o milagre que em si mesmo acabava de dar-se; o grupo dos fariseus dividindo a túnica de Cristo, mostrando bem a avidez e a ansiedade da partilha; a figura do Centurião no primeiro plano, com o seu manto vermelho, de magníficos panejamentos; a figura vestida com uma túnica amarela - côr de limão - que bebe sôfregamente por uma cabaça, como que alheio à tragédia que se passa em sua volta, e por fim, à direita e ao fundo, a figura de Judas enforcado num ramo de figueira.

Imagens de Viseu (18/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XVII - «S. PEDRO» DE VASCO FERNANDES




É freqüente ouvir fazer a seguinte pregunta: qual dos dois quadros é melhor ? O S. Pedro ou o Calvário ?

Não chego a compreender que espécie de interêsse possa haver em afirmar que um dêsses quadros seja superior ao outro.

Para quê, e porquê?

Tão certo é que ambos êles são duas autênticas obras-primas da pintura primitiva portuguesa, inteiramente diferentes um do outro na sua feição, no seu aspecto: o « Cal vário » notável pela sua composição e movimentação, e o « S. Pedro» notável, também, como retrato do Apóstolo, que poderemos considerar como um retrato simbólico do Chefe da Igreja. S. Pedro está sentado numa cadeira da Renascença ao centro duma galeria, cujas arcarias laterais deixam ver, dum lado o grupo do Quo Vadis, e do outro a Vocação do Pescado, representando S. Pedro sôbre as águas, a caminho da margem onde Cristo o aguarda.

A sua figura, austera e grave, destaca-se dentro dêste cenário, com tôda a grandeza e imponência.

Infunde respeito. Impõe autoridade, na sua altivez e na quási rudeza do seu olhar.

Se, no entanto, me preguntarem se êste quadro é o mais popular de Vasco Fernandes, então, responderei seguramente que sim.

Imagens de Viseu (17/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XVI - O SÊLO DO BISPO D. DIOGO ORTIZ DE VILHEGAS




ENTRE os objectos encorporados no «Museu de Grão-Vasco» e dos que maior interesse podem ter para a história da Catedral de Viseu, figura o sêlo ou sinête do bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas, êsse prelado ilustríssimo do princípio do século XVI, que tem o seu nome ligado à arrojada e elegantíssima abóboda dos nós, como o tinha à frontaria rica e resplandecente de ornatos que um prolongado temporal derrubou em 1635, e que os homens dessa época - dêsse decadente período de dominação castelhana - não souberam reconstruir, inspirando-se nos lindos e floridos motivos ogivais, reintegrando-a no seu primitivo estilo.

Foi o padre António José Pereira em sua vida, quis ter a gentileza de fazer doação ao Museu, do precioso sinête que havia pertencido a seu pai.

É curioso relatar o que se tem escrito àcêrca dêste sinête, e a interpretação que se tem dado aos caracteres nêle gravados.

De forma circular, tem ao centro o escudo com as armas do bispo D. Diogo Ortiz - que sendo matemático, geómetra e astrólogo - adoptou para o seu brasão um astro circundado de pequenos paralelipípedos, além da mitra que encima o escudete. Junto da orla circular vêem-se os seguintes caracteres, em maiúsculas:

SGLVDIDACICPS–
SEOPI VISENSIS

Êste sinête que foi visto por Francisco Manuel Correia e que o reproduziu na sua Memoria sôbre os bispos de Viseu, mal interpretado por êle, levou-o a concluir que se tratava dum hipotético bispo D. Soludidário ou Seludidário, cujo episcopado se teria exercido entre os dos bispos D. João Gomes de Abreu e D. Fernando Gonçalves de Miranda, que governaram o bispado de Viseu nos fins do século XV.

Porém, as razões aduzidas por Francisco Manuel Correia, caiem pela base, estando muito longe de argumentar bem, como conclui Pinho Leal.

D. Soludidário ou Seludidário, foi bispo que nunca existiu.

Em primeiro lugar, o brasão do sinête é, sem a menor dúvida, o do bispo D. Diogo, perfeitamente igual àqueles que rematam grande número de fechos da abóbada da Sé.

Basta confrontá-los.

Em segundo lugar são os próprios caracteres, atrás reproduzidos, a confirmá-lo.

Assim, segundo a interpretação dada primeiramente pelo dr. Maximiano Aragão, e que é absolutamente exacta, as quatro primeiras letras (SGLV), intercalando-lhe dois ii e acrescentando-lhe um M, dão a palavra SIGILVM (sinal, marca, sêlo); as seis letras seguintes DIDACI (de Diogo); as imediatas CPSEOPI, em que o gravador trocou inadvertidamente o c pelo E, e com o acrescente dum I, dá EPISCOPI, (bispo) e finalmente VISENSIS (de Viseu).

Desta maneira, que é a verdadeira, podemos pôr abertamente de parte a existência do bispo D. Soludidálio - que o Padre Leonardo de Sousa também inclue na sua lista de bispos duvidosos, visto que a única justificação para a sua existência se fundava na errada interpretação dada ao sinête, que, sem a menor dúvida, e, afortunadamente para a história da Catedral de Viseu, pertenceu ao eminentíssimo bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas.

Imagens de Viseu (16/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XV - A PORTA TRANSVERSA ROMÂNICO-OGIVAL DA SÉ CATEDRAL




QUANDO ao iniciarem-se, em princípios de Maio de 1919, as obras de tiragem de cal das paredes interiores da Sé de Viseu (depois do parecer favorável, dado pelo Conselho de Arte e Arqueologia da 2ª circunscrição, à minha proposta nêsse sentido) apareceram os primeiros vestígios da existência da porta transversa da primitiva Sé românica, mal poderia eu prever a grandeza do seu desenvolvimento e a beleza das suas elegantíssimas arquivoltas. E à medida que a desobstrução se ia fazendo mal poderia também, admitir a ideia de se ter emparedado semelhante jóia arquitectónica e se não tivesse procurado evitar a sua obstrução, modificando a traça dos claustros.

O lindo portal do período de transição românico-ogival, cuja restauração está hoje concluída, é formado por doze arquivoltas, que numa suave elegância nascem, aos grupos de duas, do ábaco simples. Quatro colunas de fustes cilíndricos lisos sustentam, de cada lado, as ogivas. Os capitéis representam aves brincando e beijando-se, num desenho ingénuo, como que estilizado. É o simbolismo do amor ! As bases são ornamentadas de fitas entrelaçadas. Rematando o portal, na parte superior, foi descoberto, também, um pequeno nicho com uma escultura de granito muito primitiva (séc. XII), representando a Virgem com o Menino no regaço, dum sentimento simples e calmo. Sem a menor dúvida que a barbaridade de entaipar uma obra arquitectónica desta natureza se cometeu na ocasião em que se construiram os claustros, no tempo do bispo e cardial D. Miguel da Silva, que governou o bispado de Viseu de 1527 a 1547.




A sua história é simples: Parte do chão onde hoje se erguem os claustros era ocupado pelo velho paço onde habitaram os primeiros reis de Portugal, conseguindo o referido bispo que D. João III lho cedesse, para aí construir os claustros. Sabido que D. Manuel era padrinho de D. Miguel da Silva e tão seu amigo que, por sua expressa determinação, foi educado e se formou em Roma, como já referimos, não custará aceitar que D. João III acedesse aos desejos do ilustre bispo, afilhado de seu pai.

A obra realizou-se por volta de 1534, tendo o bispo espalhado prodigamente o seu brasão, talhado em granito, em tôda a volta da parte mais alta da abóbada. Para dar maior estabilidade à sua construção, a parede lateral da Sé, em que se abria a porta transversa e sôbre a qual se ia apoiar uma das faces do claustro, foi aumentada na sua espessura a tôda a altura da abóbada, obstruindo-se então as lindas guarnições da porta, dando-lhe a forma de nicho, a que o seu desenvolvimento mais se prestava. Mas é curioso que, uma vez feito o claustro e reconhecendo-se, naturalmen te, a vantagem de manter mais aquela comunicação entre o interior da Sé e o novo claustro, reduzindo a abertura do portal primitivo, substituiram-no por outro mais estreito, rematado em arco de volta abatida, tendo-se mutilado barbaramente a primeira arquivolta da porta românica, para assim se fazer o guarnecimento das umbreiras lisas daquele portal.

Mas esta nova porta, aberta no fundo do nicho, funciona apenas até à vacância de 1720 a 1740, pois que, também, por sua vez, é obstruida em Janeiro de 1721, em que Joam Rodrigues, para guarnecer as paredes internas da Sé de painéis de azulejo - de desenho mau, e executados em Coimbra - a tapa, de pedra e cal e para melhor a dissimular, coloca pela parte interior da Sé uma meia base de granito com seu fuste fingido de madeira caiada! Na parte e'xterior, dando para o claustro, o nicho é aproveitado para nêle se armar um altar provisório, de madeira. Por fim, depois de estar quási quatro séculos emparedado, o formoso portal volta, por um feliz acaso, a patentear-se, em tôda a sua beleza, aos olhos daqueles que amam, com enternecimento, os restos do nosso maravilhoso património artístico e se sentem felizes admirando-os.

Imagens de Viseu (15/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XIV - O ORGÃO DA CATEDRAL




O órgão que actualmente se vê na Catedral de Viseu, entre as duas primeiras colunas da nave do lado esquerdo, entrando, é uma excelente obra de talha que, no entanto, muito prejudica a beleza arquitectónica da Sé, obstruindo quási completamente o espaço compreendido entre as duas colunas e as suas respectivas ogivas.

Foi mandado construir pelo bispo D. Francisco Monteiro Pereira de Azevedo, que governou o bispado desde 1792 a 1819, datando, portanto, a sua construção dos princípios do século XIX. OS seus motivos decorativos também assim o atestam, estando a sua parte superior rematada com o brasão do bondoso bispo. Foi seu construtor Luís António dos Santos, a quem chamavam o engenheiro, por ser muito habilidoso, sendo marceneiro e organista. Era natural de S. Cosmado, povoação dos arredores de Mangualde.

Anteriormente a êste órgão havia um outro que não estava no mesmo sítio, como diz Pinho Leal, mas sim encostado à parede lateral esquerda, como, antes de feita a deslocação dos azulejos para os claustros, se reconhecia fàcilmente pela falta que dêles havia no lugar da parede que foi ocupada pela parte inferior do órgão, que era em forma de taça.

A data exacta da construção dêsse órgão não é fácil dizê-la, à falta de conhecimento de qualquer
documento que a êle se refira. O facto de Pinho Leal atribuir a êsse órgão substituído o século XVI, para época da sua construção, o que não deve ser, levou a um lamentável êrro quem redigiu, na parte referente a Viseu, o «Manual do viajante em Portugal» - pois nêste livro se diz que o « magnífico órgão» que se admira na Sé de Viseu, é do século XVI!

* * *

O bispo Pereira de Azevedo pela sua bondade e pelas suas virtudes gosava da maior simpatia e popularidade em Viseu. E tanto que, numa situação anormal, em 1808, em que se deu um motim, de que resultou serem prêsos o general da província e o juiz de fora, o povo dirigindo-se ao paço episcopal entregou ao venerando prelado o govêrno interino da cidade.

Jaz na Sé, no arco cruzeiro, ao fundo da capela-mór. Três sepulturas aí se vêem: do lado do evangelho, a do bispo D. Francisco Mendo Trigôso (1770-1782), e ao centro, a do bispo D. Manuel de Saldanha, falecido em 26 de Dezembro de 1671, como ainda se vê na inscrição tumular, e aonde, também, segundo Pinho Leal, repousa o virtuoso e caritativo prelado Pereira de Azevedo.

Imagens de Viseu (14/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XIII - OS CLAUSTROS




Os claustros da Sé ocupam o espaço compreendido entre a sua parede lateral voltada ao Sul e o pano da parte da muralha que liga a tôrre onde hoje está instalado o Arquivo Distrital, com a antiga tôrre do relógio.

Até ao 1º quartel do séc. XVI existiam nêste mesmo lugar os antigos Paços reais e um pequeno largo para onde dava, naturalmente e lògicamente, a porta lateral da primitiva Sé, de estilo românico-ogival, descoberta por nós nos primeiros dias de Maio de 1919, e hoje completamente restaurada.

O eminente bispo e cardial D. Miguel da Silva, pondo o maior interêsse na construção dos claustros, conseguiu de D. João III que lhe cedesse o chão dos antigos Paços, possivelmente arruinados, para no seu lugar edificar os claustros.

E que não lhe foi muito difícil conseguir o seu desejo fàcilmente se avaliará, atendendo não só aos altos merecimentos do ilustre prelado, que governou o bispado de Viseu de 1527 a 1547, mas também ao facto de êle ser afilhado do rei D. Manuel, a expensas de quem estudou e se formou em Roma. Os claustros foram concluídos em 1534. As suas colunas são de ordem jónica e o seu estilo é já da Renascença. Na abóbada, que é de tijôlo, há uma série de brasões de granito, com o leão heráldico dos Silvas, atestando, assim, a autoria dessa elegante obra.

Êstes claustros eram descobertos na sua parte superior, e tanto que o lagêdo que reveste as camadas de tijôlo, e que hoje forma o piso do claustro superior, era levemente inclinado, para facilitar o escoamento das águas. Isto até 1721, porque nessa data - na vacância de 1720 a 1740 - procedeu o cabido às obras de cobertura da catedral com telha (1), fazendo ao mesmo tempo o claustro superior, sendo o telhado dêste a continuação do telhado da Sé. Nesta mesma ocasião se construiu também a galeria coberta, que dos claustros vai até à tôrre do arquivo.

As colunas são de estilo dórico, separadas por uma série de balaústres de granito.

No claustro inferior há alguns nichos adaptados a pequenas capelas.

De tôdas, a mais interessante, pela sua elegante simplicidade e pela beleza do trabalho de escultura do seu altar, é a primeira que se encontra à esquerda, entrando, e que representa o Descimento da Cruz.

Êste baixo relêvo é feito em pedra de Ançã, obra certamente saída dos canteiros de Coimbra, tão notáveis na época da Renascença, e que gloriosamente conservaram a sua tradição até hoje. Está datada de 1567.

Também nêste claustro foi colocado um sarcófago de granito contendo as ossadas de alguns portugueses e espanhóis fusilados em Viseu em 1832.


(1) Devido às obras de reintegrações a que a Direcção dos Monumentos Nacionais anda procedendo na Catedral, já foi retirada esta cobertura de telha.

Imagens de Viseu (13/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XII - A SÉ




É muito vasta, infelizmente, a série de transformações, de complicadas modificações e de irritantes acrescentamentos que a primitiva Sé românica de Viseu tem sofrido, pelos tempos fora, dando-se o curioso anacronismo, para quem a visita, de entrar por um portal dos meados do século XVII, construído entre duas tôrres românicas do século XII, com modificações na parte superior (a balaustrada e as cúpulas) dos fins do século XVII e princípios do século XVIII, para se encontrar, uma vez lá dentro, debaixo duma abóbada dos princípios do século XVI, apoiada em colunas e paredes do século XII!

Isto levou o crítico de arte, o conde polaco Raczynski, - que, como é sabido, esteve em Portugal nos meados do século passado, - a dizer no seu livro « Les Arts en Portugal », publicado em 1844, que não havia país que apresentasse, sob o ponto de vista de arquitectura, mais anacronismos que Portugal, e que não conhecia quási nenhum edifício do nosso País que o progresso não tivesse estragado e em que não tivesse estabelecido a confusão.

De tôdas estas obras, que com o andar dos tempos foram transformando a primitiva Sé românica, salva-se apenas, é claro, a obra notável da abóbada dos nós, que o bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas em boa hora se determinou a mandar fazer, e porventura delineou, nos fins do século xv, concluindo-a em 1513, - em substituição da anterior que era de madeira (que dantes era de fôrro de madeira) - como diz Botelho Ribeiro.

Mas essa obra foi tão genialmente concebida e executada que, a bem dizer, é o estilo da abóbada que domina e prevalece, como que formando um todo, tão bem êle está ajustado à parte românica primitiva.

Prosper Merimée notou, nos seus trabalhos sôbre arquitectura, como os dois estilos - o românico e o gótico - tão diferentes na aparência, quando se considera cada um no seu ponto de desenvolvimento, se confundem, por assim dizer, insensivelmente, no seu ponto de transição, sendo certo que a arte gótica foi buscar todos os seus elementos à arte românica que a precedeu.

A actual Sé de Viseu, com as suas colunas e paredes românicas, em que se apoia a abóbada gótica, é um frisante exemplo da afirmação de Prosper Merimée.

***

A planta da Sé de Viseu é de três naves, divididas por seis colunas românicas, tendo a forma duma cruz latina, como geralmente acontece nas igrejas românicas. Os dois braços da cruz formam o transepto - a sua haste constitue a nave central e a Capela-Mór.




O esqueleto ou os satura da abóbada é constituido por séries de cruzamentos de ogivas, sendo cada uma dessas séries (a que podemos chamar lanças) - formada por oito superfícies curvas que, interceptando-se sucessivamente, dão lugar a oito intercepções constituídas pelas nervuras em diagonal, alternando com a ornamentação simples e elegantíssima das cordas com os nós. As nervuras e as cordas dos nós encontram-se tôdas num ponto culminante, que é o fecho de cada lanço da abóbada.

Cada um dêstes fechos é rematado por diferentes escudos, brazonados uns e com divisas régias outros trabalhados todos em pedra de Ançã.

Assim, na abóbada correspondente à nave central, e no fecho do 1.° lanço, junto à frontaria e por cima do côro alto, vê-se o brazão do bispo D. Jorge da Costa, o Cardial de Alpedrinha, arcebispo de Braga, prelado notabilíssimo, que tendo falecido em Roma em 1508 e sendo o antecessor de D. Diogo Ortiz no bispado de Viseu, muito contribuiu para a realização da obra da abóbada, tendo até deixado em testamento uma avultada quantia à Catedral de Viseu. Por gratidão e em sua memória, destinou D. Diogo aquele lugar para o brazão do seu antecessor.

No fecho imediato nota-se, em maiores dimensões, dominando todos os outros, o brazão do bispo D. Diogo Ortiz, que assenta sôbre uma inscrição, como que gravada nas folhas dum livro, com os seguintes dizeres:

ESTA SÉ MANDOU ABOBEDAR o MUITO MANIFICO
SENHOR D. DIOGO ORTIZ BISPO DESTA CIDADE
E DO CONSELHO DOS REIS E SE ACABOU NA ERA DO SÑOR DE
1513

Êste prelado, sendo astrólogo e matemático, adoptou para o seu brazão uma estrêla, que ocupa o centro do escudo, tendo como cercadura uma série de paralelipípedos.

A seguir, no 3º fecho, vê-se a divisa ou emprêsa de D. Afonso v - um rodizio ou roda de navalhas.
No imediato está a tão conhecida divisa de D. João II - um pelicano ferindo o peito e alimentando de sangue os seus filhos - e, finalmente, no último lanço, no transepto, vêem-se as armas de Portugal.




Os fechos das naves laterais são todos rematados com o brazão do bispo D. Diogo, com excepção dos do transepto que têm, do lado Norte, as armas de Portu,gal e de Aragão, certamente em homenagem à Rainha D. Izabel, mulher de D. Denis; e, do lado Sul, a divisa de D. Manuel- a conhecida esfera armilar.

Por último, no fecho da nave lateral Norte - a seguir áquele em que está o brazão de Portugal e Aragão - vê-se um grande açafate de flores, certamente alusivo ainda à RaÍnha D. Izabel- Rainha Santa de Portugal.

D. Diogo Ortiz era conhecido pelo nome de Calçadilha, por ser natural da povoação dêste nome, perto de Zamora. Era de nobre ascendência e veio para Portugal em 1476, acompanhando como confessor a Excelente Senhora D. Joana, filha de Henrique IV de Castela, que sendo sobrinha de D. Afonso V foi depois sua 2ª mulher.

D. Diogo mereceu tanto a estima dos reis D. Afonso V, D. João II e D. Manuel, que o chamaram para o seu Conselho e o fizeram seu confessor e capelão-mór, prior de S. Vicente de Fora, bispo de Tanger e de Viseu.

Como nota interessante da vida dêste prelado, não podemos deixar de citar o facto de D. Diogo ter feito parte do congresso de sábios que D. João II convocou, para decidir da proposta feita por Cristóvão Colombo para demandar os mares, em descoberta do Novo Mundo, navegando para o Poente, proposta que a Inglaterra já tinha desprezado e o referido congresso igualmente desprezou, por condescendência com D. Diogo Ortiz que se mostrou tenazmente contrário à aceitação do oferecimento de Cristóvão Colombo.

Diz Manuel Botelho Ribeiro nos seus «Diálogos morais, históricos e políticos» que estava el-rei quási persuadido a lançar mão do que dizia Colombo, e o bispo D. Diogo o desviou dizendo. . . «que tudo tinha por patranha ».

D. Diogo faleceu em Almeirim em 1519, quando aí se achava a côrte. Foi sepultado na mesma vila, mas hoje nada ali existe do edifício da igreja em que o prestigioso bispo foi sepultado, nem o menor vestígio dos antigos paços reais.

O terramoto de 1755 arrasou tudo.

Como natural complemento da famosa abóbada também o insigne bispo realizou a obra da frontaria no mesmo estilo, em substituíção da primitiva, românica.

Da riqueza dos motivos arquitectónicos dessa porta principal e da perfeiçâo da sua execução pode fazer-se uma ideia pelo que diz Botelho Ribeiro:

«O friso, as figuras, a folhagem do portico principal e os mais relevos e lavares com que é obrado, que nem de cera se fizera melhor, haveis de confessar não tereis visto coisa semelhante; todo aquele portal e o. mais frontespicio que está entre as Torres com curiosa invenção de vidraça que dá luz ao côro, he obra deste insigne prelado».

Mas, infelizmente, esta bela obra desmoronou-se em Fevereiro de 1635 e, em lugar de ser cuidadosamente reconstruída, foi substituída por outra, que é a actual, de estilo pesado e jesuítico, obra dum medíocre artista espanhol, o arquitecto João Moreno, de Salamanca.

A frontaria actual da Catedral de Viseu é, portanto, já a 3ª edificada e que chega a ser mesquinha, não estando em harmonia com o estilo delicado e ao mesmo tempo grandioso do interior.

Como único pormenor interessante, vêem-se nela 6 nichos com esculturas de pedra de Ançã, representando a do alto, Nossa Senhora da Assunção, como orago da Catedral; as laterais representam os quatro Evangelistas - S. João, S. Lucas, S. Marcos e S. Mateus, acompanhados pelas figuras que respectivamente os simbolizam: a Águia, o Boi, o Leão e o Anjo.

Ao centro vê-se a imagem de S. T eotónio, que foi 2.° prior da Catedral no século XII, fundou o Convento de Santa Cruz de Coimbra e é o padroeiro da cidade de Viseu.

V oltemos ao interior da Catedral.




À nave central corresponde, no tôpo, a Capela-Mór, (que era a antiga abside) assim como às naves laterais correspondem os absidíolos.

A Capela-Mór, com a infeliz modificação mandada fazer pelo bispo D. João de Melo, que governou o bispado de 1673 a 1684, perdeu todo o seu caracter primitivo.

A antiga abside românica, que era de forma poligonal, de muitos lados, alternando os contrafortes com as reintrâncias, aonde se abriam as esguias frestas, com as suas molduras próprias, como ainda se vê nos absidíolos, postas já a descoberto, exteriormente, foi transformada e substituída por outra (que é a actual) de forma rectangular, pesada e sem graça. Uma das razões desta modificação foi a de dar mais luz à Catedral, razão que, pouco mais tarde, levou também o Cabido, na vacância de 1720 a 1740, a modificar tôdas as janelas, dando-lhes a forma rectangular que ainda têm e que é de urgente necessidade repôr na sua feição primitiva (1).

Mas a mania da muita luz, que fez modificar tôdas as janelas da Sé, ampliando-as e dando-lhes a forma rectangular, fazendo-lhes assim perder a sua elegante forma primitiva, e a moda da talha, vêm, uma coisa e outra, transformar por completo o ambiente próprio ao recolhimento e à unção, e o aspecto interno da Catedral, que sofre torturas impiedosas na sua traça primitiva.

Mais tarde vem o domínio da cal! Um autêntico sacrilégio artístico! O granito das paredes e das colunas, dêsse admirável granito beirão, de grão tão fino e de tom tão suave e macio para a vista, é bàrbaramente picado para melhor aderência da argamassa! As colunas que são formadas pela reünião de diferentes superfícies cilíndricas que se interceptam verticalmente, são transformadas em colunas duma só superfície cilíndrica, enchendo-se de cal e areia as reintrâncias e alizando tôda a superfície com cal!

As paredes são também caiadas, tendo-se colocado em 1722 um silhar de azulejos feitos em Coimbra, por um medíocre artista da época, cujo nome não vale a pena citar, alusivos a cênas da infância de Cristo e a cênas da vida de S. T eotónio.

Com a colocação dêstes azulejos profanam-se túmulos e tapam-se portas! Só a abóbada, certamente pela altura a que está, escapa à caiação! A desarmonia é completa!

O conde de Raczynski, que exerceu funções diplomáticas em Portugal no meado do século XIX,
refere-se a êsse facto na obra já citada, em carta datada de Viseu em 1844, profundamente indignado, nos seguintes termos:

Contudo a grandiosidade da abóbada é tamanha que não consegue ser destruida, embora seja diminuída pela visinhança da cal das paredes e das colunas.

Raczynski acrescenta: Vê-se que a cal nos meados do século XIX estava no seu apogeu! E exerce o seu poder duma maneira cruel, não escapando até as imagens da fachada, que também são caiadas!

Mas o seu domínio (que hoje felizmente está quási extinto) vai até 1895, data em que, pela intervenção da então Rainha Senhora D. Amélia de Orleans, por ocasião da sua primeira visita a Viseu, são limpas as colunas e restituídas à sua côr e forma primitiva. Hoje só há uns restos de cal na capela do Santíssimo e na Capela-Mór.

A Sé tem, assim, a pouco e pouco, readquirido a sua harmonia primitiva de tons suaves.


(1) Devido às obras de reintegrações que se vêm realisando na Catedral, já se encontra restituida à sua forma primitiva a janela da parede Norte.

Imagens de Viseu (12/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

XI - A RUA DIREITA




A RUA DIREITA, por ser directa do extremo Norte do velho burgo ao seu extremo Sul, é a mais extensa e a mais torta de tôdas as ruas da cidade sendo, ao mesmo tempo, a mais pitoresca e concorrida.

Perdeu, naturalmente, muito do seu caracter antigo; mas, ainda assim, é a rua que nos mostra mais exemplares arquitectónicos dos sec. XVI, XVII e XVIII. E aqui cabe dizer que Viseu e Portalegre são, entre as cidades de Portugal, aquelas que conservam maior número de edificações civis dos séc. XVII e XVIII.

Das épocas quinhentista e seiscentista merecem referência especial as casas com os números 73 - singela e elegante, com um escudo de granito liso (picado) -75, 77, 79 e 87, 89, 139, 141, 143 e 213, 217, 204 e 194 (estas duas com janelas geminadas) e 246.

Os dois mais belos palácios do séc. XVIII encontram-se nesta rua: o da família Prime (Teixeira de Carvalho) também conhecido por Casa de Cimo de Vila (1), por estar situada no extremo mais alto da cidade (n.os 9 e 11) e o palácio da família Queiroz (viscondessa de Treixedo) primitivamente dos seus antepassados Almeidas Cardozos Cerqueira de Sousa, (nº 92) junto dum pequeno Largo, em que há uma interessante casa (nº 4) e onde começa a Rua da Senhora da Piedade, (trecho de casas do séc. XVI).

As suas proporções, tanto dum como doutro edifício, tão semelhantes na sua traça que não se caírá em êrro atribuindo-os ao mesmo artista, são duma notável harmonia, ao mesmo tempo que se nota uma grande elegância no desenho das guarnições de granito das janelas e portas principais, rematadas estas pelos respectivos brazões.

Há ainda a notar os edifícios com os n.os 150, 159, 161, 163, 167, 219 e 160, ficando êste à esquina do pequeno Largo, ao fundo do qual se vê um portal brazonado (Silveiras, de Lamêgo) que dá entrada para o vasto pátio da Casa, com suas escadas alpendradas, em que actualmente funciona o Tribunal Militar.

Dignas de referêncÍa são, também, as casas com os n.os 144, tõda em silharia, com seu brazão eclesiástico de granito; 114, com suas portas ogivais e, finalmente, a bela casa apalaçada rematada por uma larga e emoldurada cornija de granito (nº 106).

A par dêstes vastos cenários de arquitectura civil, dos mais notáveis pela sua extensão, do nosso país, o que torna esta rua mais pitoresca é a variedade de lojas, com os mais variados produtos, que a enchem dum extremo ao outro.

Há ainda quem pense em . . . endireitar a Rua Direita. . .

Como se isso fôsse possível! E como se isso fôsse necessário! Perderia, creiam, tôda a sua graça, todo o seu pitoresco.


(1) Junto dêste palácio há uma pequena casa em silharia, muito singela (n.º 13 e 15), mas caracterizadamente do sec. XVI.

Imagens de Viseu (11/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

X - A CASA DO VISO




A QUINTA DO VISO fica, justamente, a 2 quilómetros da cidade, na estrada de Mangualde.

A sua situação é magnífica.

Da casa, que é um exemplar singelo, mas elegante, já naturalmente modificado, dos palacetes mais modestos do séc. XVIII, com seu alpendre e sua escada exterior dupla, com balaústres de granito, descobre-se um extenso e belo panorama que tem por fundo a majestosa Serra da Estrela.

Esta casa foi mandada edificar, nos meados do séc. XVIII, por Manuel Cardoso Lourenço de Figueiredo de Lacerda Moreira, que foi capitão-mór da cidade de Viseu, era fidalgo da casa real, e foi, também, cavaleiro professo da ordem de Cristo.

Junto duma fonte que está no jardim existe uma pedra d' armas, que provàvelmente foi tirada da casa, quando algum dos seus novos proprietários ali fez obras, modificando-lhe o telhado e o alpendre da entrada. No 1º quartel tem as armas dos Moreiras, no 2º as dos Lacerdas, no 3º as dos Cardosos, e no 4º as dos Figueiredos. Em face dêste documento e da época da edificação da primitiva casa, não haverá dúvidas sôbre a origem. indicada.

Pertenceu depois à família Lobão Ferreira, sendo hoje propriedade do sr. Mário de Carvalho, que com critério artístico e acentuado bom gosto a transformou, reintegrando-a no seu caracter primitivo.

Imagens de Viseu (10/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

IX - A CASA DE CIMO DE VILA




A CASA DE CIMO DE VILA OU dos Ernestos, como era conhecida desde o princípio do séc. XIX, é um magnífico exemplar dos palácios portugueses do séc. XVIII.

Foi mandada edificar por José Teixeira de Carvalho, fidalgo da casa real e cavaleiro professo da Ordem de Cristo, no local da casa por êle adquirida, assim como outros bens, entre os quais a quinta de Marzovelos e o grande praso do Fôjo, à família Costa Homem Souto Maior, uma das mais nobres famílias do Norte.

Companheiro e amigo do Barão de Qintela, associou-se com êle no negócio dos tabacos, no qual ganharam uma fortuna. Honrou-se também com a amizade do Marquês de Pombal.

José Teixeira de Carvalho teve um filho, José Ernesto, o qual, por sua vez, casando com uma senhora da família ilustre de Laborim, teve por herdeiro e sucessor seu filho António Ernesto: daí o ser conhecida a casa, depois da morte de seu avô, pela Casa dos Ernestos.

António Ernesto Teixeira de Carvalho, casou com D. Maria Tomásia da Rocha Velho, do Pôrto, tendo uma única filha, a ilustre senhora Condessa de Prime, D. Maria da Glória Teixeira de Carvalho Sampaio da Rocha Velho, que foi a 1ª Baroneza de Prime, por ter casado em primeiras núpcias com o Barão de Prime (1), razão pela qual a casa dos Ernestos pertence, por herança, à família Prime e nela habitaram os Condes de Prime.

***

A casa é formada por dois corpos laterais ligados entre si, tendo cada um dêsses corpos sua porta de elegante guarnição de granito, encimadas, ambas elas, pelo brazão dos Teixeiras de Carvalho (2).

As janelas teem também elegantes guarnições de granito com aventais.

As paredes do átrio e da escadaria são revestidas de azulejos recortados e policromos, do mesmo estilo e porventura da mesma mão dos da igreja dos Terceiros.

Os paineis centrais, pintados a roxo, representam diferentes episódios de caçadas ao urso, ao javali, às lebres e ao veado.

Não são famosos êsses desenhos, ao contrário da parte ornamental da cercadura que os envolve, que é excelente.

A capela, que fica no extremo Sul da casa, é interiormente revestida também de azulejos a tôda a altura das paredes.

A sua fachada é duma grande elegância de linhas, destacando-se a guarnição de granito que liga a porta com a janela. A porta tem lindas ferragens de metal amarelo nas suas almofadas e, na guarnição superior do portal, lê-se a seguinte inscriçao (3):

ESTA CAP. M. F. M.EL TEIXRA
DE CARVª COM MIÇA DE DOMINGOS E
DIAS SANTOS PARA O Q APUTECOU BENS
- ANO DE 1748

No tempo em que a Casa de Cimo de Vila era habitada pelos Condes de Prime, foi ali fidalgamente recebida a raínha Senhora D. Amélia, nas três ocasiões em que veio fazer sua cura de águas a S. Pedro do Sul, em 1895, 1896 e 1898.


(1) Dêste 1.° matrimónio houve apenas um filho, Luís de Loureiro, mais tarde Visconde de Loureiro, que foi o maior elegante do seu tempo, na sociedade de Viseu. Tendo casado com a sr." D. Antónia da Silva Mendes, filha de João da Silva Mendes, teve dois filhos: Luís de Loureiro (já falecido) e a sr. & D. Eugénia de Loureiro Relvas.
Do 2.° matrimónio, com José Porfírio Rebelo, depois Conde de Prime, teve 4 filhos - Fernando, José, Luís e António (mais tarde, visconde de Marzovelos).

(2) Marcel Dieulafoy, reproduz, no seu livro « Espagne et Portugal », êste palácio português, como exemplar de arquitectura civil em que se nota uma singular predilecção pelos ornatos salientes das cantarias, predominando os arcos côncavos e convexos.

(3) Manuel Teixeira de Carvalho era irmão de José Teixeira de Carvalho. Exerceu o cargo de Tesoureiro-Mór da Sé. Sendo solteiro, e tendo-lhe pertencido. por vontade de seu irmão, a casa de Marzovelos, determinou no seu testamento, em sinal de reconhecimento, que esta casa fôsse para o primeiro filho de seu irmão José.

domingo, junho 18, 2006

Imagens de Viseu (9/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

VIII - CASA DO MIRADOURO




DAS poucas edificações do séc. XVI que aínda existem em Viseu, nesta ânsia de bota-abaixo e de substituIção por construções incaracterísticas e arrepiantes, é esta, sem dúvida, a mais notável e aquela que, a-pesar-das transformações porque naturalmente tem passado através dos tempos, mais conserva o seu carácter primitivo.
Miradouro se chamava, até o fim do séc. XVI, o terreiro que hoje tem o nome de Largo António José Pereira, e que na época intermédia, depois de concluído o edifício do Colégio, se chamou Largo de Traz do Colégio.

Apropriado era o nome, pela linda vista que daquele logradoiro se disfrutava na época em que o burgo se reduzia a pouco mais do que à parte limitada pela cintura da muralha. E então, aí por volta de 1520, terminada em 1513, como é sabido, a abóbada da Catedral, da iniciativa do bispo Diogo Ortiz, um seu sobrinho, Fernando Ortiz de Vilhegas, que foi chantre da Sé de Viseu e abade de Castelões, teve o bom gôsto de mandar construir, no extremo noroeste do Miradouro, a casa a que nos estam os referindo.

Atesta-o o brazão dos Ortiz, que se vê a meio do entablamento de ordem jónica que guarnece a varanda geminada da frontaria.

Na ala direita da casa, duas janelas também geminadas, de volta inteira e com ornatos de estilo gótico, já do último período, põem em maior destaque a falta de janelas iguais na outra ala. Mal se compreende aquela substituição, ou tardia adaptação na fachada do mesmo edifício!

A tôda a largura da frontaria corre um friso de modilhões no lugar da cornija, limitado por duas gárgulas nos ângulos dos cunhais; e, por cima da porta da entrada, de volta inteira, vê-se o brasão dos Melos que ali foi colocado, muito posteriormente, na época em que a casa foi adquirida por um cónego da Sé - a quem pela sua bela figura chamavam o Bonito - da família dos Pires Bandeiras da casa da Torre-Deita, que também usava o apelido Melo.

Ou porque a casa tivesse pertencido ao Morgado da Tôrre, ou porque tivesse uma tôrre na parte voltada para o poente, o certo é que esta casa também é conhecida pela Casa da Tôrre.

Devido à circunstância de uma filha do abade de Castelões, Fernando Ortiz de Vilhegas, ter casado com o senhor da Casa de Molelos, também a Casa do Miradouro, ou da Tôrre, foi pertença dos senhores de Molelos.
Dêles é que passou (por compra) para a família Pires Bandeira, pertencendo hoje à família Calheiros, por herança.

Imagens de Viseu (8/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

VII - O ANTIGO CONVENTO DE SANTO ANTONIO




NOS princípios do séc. XVII, o bispo D. João Manuel, que governou o bispado de Viseu desde 1610 a 1625, bem como as autoridades civis, interessaram-se por que os frades capuchos do Convento de Orgens, que tinham pelas suas virtudes uma grande simpatia entre a população da cidade, fôssem transferidos do seu pitoresco mosteiro para Viseu.

Em 1613 essa transferência era concedida; mas, porque não tivessem aonde se instalar na cidade, e aínda pelo desgôsto logo manifestado pelo povo de Orgens e seus vizinhos, por tal mudança, o certo é que só passados 20 anos, em 1633, é que (segundo Leonardo de Sousa) os primeiros frades fundaram em Viseu a sua primeira casa, tendo, para isso, com o produto de esmolas, adquirido a quinta e casas de S. Miguel de Fetal, propriedades que então pertenciam a David Alvares, pedreiro e mestre d' obras. Por quaisquer circunstâncias que surgiram, como fôsse a deficiência da instalação e inconvenientes do local, os frades de Orgens, já sob a invocação de S:o António, não estavam satisfeitos em S. Miguel.

E, como em 1634 falecesse o chantre e cónego da Sé de Viseu, Gaspar de Campos Abreu (1), morador e dono da quinta de Maçorim, que a deixou por legítima a uma sua filha, pensaram os frades de Orgens em adquirir essa propriedade que se estendia até ao Rossio, actual Praça da República, que então se chamava o Terreiro de Maçorim.

E, se bem o pensaram, melhor o fizeram; pois a compraram com o produto da venda da quinta de S. Miguel e de mais esmolas que angariaram para êsse fim, tendo tomado posse dela, depois de cumpridas tôdas as formalidades, um ano depois.

Mandaram logo construir a igreja, por sinal duma grande pobresa de estilo, mais pobre aínda que a de Orgens, mas nesta certamente inspirada pela flagrante semelhança da entrada, disposição do pequeno claustro, etc.

Assim se conservou o Convento (sem contudo deixar de haver religiosos em Orgens) até ao séc. XVIII, época em que se transformou em casa de noviciado dos frades capuchos franciscanos.
Em 1834, extintas as ordens religiosas, foi profanado e adaptado a quartel do regimento de infantaria. 14. Como quartel foi sempre, é, e será um pardieiro sem nenhuma - uma só que seja ! - das condições necessárias ao fim para que destinaram o velho e pobre convento.

***

NOTA: - A direita da gravura vê-se a Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco. Depois da Catedral é, dentro da sua época (séc. XVIII), a mais elegante e artística igreja de Viseu.


(1) No Museu de Viseu existe um cálice de prata dourada com esmaltes e pedras encastoadas que foi mandado fazer por este chantre e cônego. Tem o seu brasão em esmalte na base e a inscrição: « Gaspar de Campos Avreu, chantre e conego na Sé de Viseu o mandou fazer. Ano de 1629 »

sábado, junho 17, 2006

Imagens de Viseu (7/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

VI - O ANTIGO PAÇO DE FONTÊLO




A CASA DE FONTÊLO, que durante tantos séculos foi habitação dos bispos de Vis eu, não tem, em si, o menor interêsse arquitectónico.

Nem o mais leve vestígio artístico nela se descortina!

Já não pode, porém, dizer-se o mesmo quanto ao seu interesse histórico, não só porque ao Paço de Fontêlo está ligado o nome de alguns dos mais notáveis bispos de Viseu, que ali viveram e morreram, mas também porque - já depois de implantada a República- deixando de ser residência dos bispos para se transformar em presídio militar, nêle esteve prisioneiro, durante alguns mêses do ano de 1917, para responder em conselho de guerra, o malogrado comandante Machado dos Santos.

Desde os meados do séc. XII, em que o bispo D. Odório, com prévio consentimento do Cabido, comprou a quinta de Fontêlo, que ela se torna residência dos bispos de Viseu, com pequenas intermitências, até 1720, voltando a sê-lo, definitivamente, depois de 1810 até 1911.

Os bispos que maior interêsse mostraram por Fontêlo, quer fazendo-lhe obras, quer adquirindo terras para ampliar a quinta e a mata, foram: D. João Homem e D. Garcia de Menezes, no séc. xv; e o Cardial D. Miguel da Silva, D. Gonçalo Pinheiro e D. Jorge de Ataíde, no séc. XVI.

D. João Homem (1392-1426), foi quem iniciou as obras do Paço que, naturalmente, até essa data seria uma modesta habitação, tendo também adquirido terras para ampliação da quinta (1).
D. Garcia de Menezes, seu sucessor (1426-1430), continuou essas obras e fundou a capela junto do Paço, cuja invocação era Santa Marta (2).

Mais tarde o erudito bispo D. Miguel da Silva (1527-1547), formado em Roma a expensas de D. Manuel, de quem era afilhado, volta a sua atenção para Fontêlo e manda erigir na mata a Capela do Senhor Morto, tendo também adquirido mais terras.

A seguir, o Bispo D. Gonçalo Pinheiro (1553-1566), outro erudito humanista e formado em teologia pela universidade de Salamanca, que também tem o seu nome ilustre ligado a obras feitas na Catedral de Viseu (3), edificou na mata de Fontêlo a capela de s: Jerónimo, que oferece a curiosidade de ter uma inscrição em grego na guarnição do portal, e mandou fazer o pórtico da entrada da actual carreira, que dá acesso ao Paço, tendo gravado na torsa uma inscrição em latim, cuja tradução quere dizer:

« GONÇALO PINHEIRO, BISPO DO POVO, MANDOU
CONSTRUIR ESTES PÓRTICOS COM O SINAL INDI-
CATIVO DA NOSSA SALVAÇÃO PARA HOSPÍCIO E
BENEFÍCIO DOS POBRES E PARA SEUS USOS,
NO ANO 1565 »

Nesta inscrição se faz referência a outro pórtico (o que dá passagem par.a o páteo, que é em ogiva e tem a um lado as armas de D. Gonçalo Pinheiro e, ao outro, as doutro bispo para nós desconhecido, mas que possivelmente será D. Luiz Coutinho) e, bem assim, se faz referência ao hospício, em que o bondoso e erudito antístite pensou transformar Fontêlo, o que não chegou a levar a efeito por ter falecido pouco tempo depois.

Finalmente, nos fins do séc. XVI, é o bispo D. Jorge de Ataíde, que, tendo feito a sacristia da Sé de Viseu, também faz importantes obras em Fontêlo.

***

Em 1810, por ocasião da invasão francêsa do comando de Massêna, o edifício do Colégio, já então residência dos bispos, foi ocupado pelas tropas inglêsas que ali instalaram o seu hospital de sangue, voltando Fontêlo, desde então, a ser novamente e definitivamente a residência dos prelados viseenses. Hoje o Paço de Fontêlo, muito mal aproveitado, está adaptado a casa de reclusão; e a Mata, actualmente numa orientação errada de destruição e de péssimo gôsto, invadida pelo cimento armado, vai perdendo todo o seu antigo encanto !...


(1) O Bispo D. João Homem, sendo grande amigo do Mestre de Aviz, foi Padrinho do Infante D. Henrique, 1.° Duque de Viseu.

(2) No Paço de Fontêlo, alem do quadro a Ceia, (um tríptico), dos muitos atribuidos a Grão Vasco, mas que deve ser da mão de Gaspar Vaz, havia um outro quadro representando «Jesus em casa de Marta» que, sem dúvida, ornamentou o altar principal desta capela (a primitiva, que não a actual, já profanada). Ambos estes quadros foram encorporados no Museu de Grão Vasco, estando o primeiro já restaurado, e o segundo em acabamento na oficina de reparações.

(3) Além da capela Tertia, no daustro, que destinava para a sua capela tumular, mandou construir a escada que dá acesso ao côro alto. Tanto na capela como na abóbada do patamar da escada se vê o seu brasão.

Imagens de Viseu (6/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

V - PORTAL DO ANTIGO SEMINÁRIO DE VISEU




É duma grande elegância, nas suas linhas sóbrias de estilo Renascença, o portal do antigo Seminário de Viseu, mais tarde Paço dos Bispos, (Paço dos Três Escalões) e vulgarmente conhecido pelo nome de Colégio, no Adro da Sé.

Superiormente ao entablamento, que liga as duas elegantíssimas colunas laterais, está uma inscrição em latim que diz:

ANTONI: TIBI NONIUS PARAVIT DIGNUS
PONTIFICIUM LABOR DUORUM

O que quere dizer: « António: Nuno te preparou esta obra, digna de dois bispos ».

Nesta sintética frase está a referência aos dois bispos - dos mais ilustres - a quem se deve a construção do edifício: D. Nuno de Noronha, seu fundador, e D. Frei António de Sousa, seu continuador.

Os seus brasões ladeiam a inscrição que é encimada por um nicho, com uma graciosa imagem de Nossa Senhora da Esperança, de pedra de Ançã.

A construção data do último quartel do séc. XVI, existindo na parede posterior, quási junto do cunhal, por baixo do peitoril da 2ª janela, uma outra inscrição que marca o dia exacto do início das obras:

D. NUNO DE NORONHA
BPO DE VISEU - FEZ ESTE SE-
MINARIO E COMEÇOU - A OBRA DIA DO
SPIRITO ST.o .M. D.X.C.III, SENDO
REITOR JOAM SIRGADO

Viseu deve grande reconhecimento à memória dêstes dois bispos ilustres, por esta construção, pois não é fácil calcular as dificuldades que acarretaria para a vida económica da cidade, a falta dêste edifício (1). Bastará lembrar que não há ainda muitos anos ali se achavam instalados: o Tribunal, o Liceu, a Direcção das Obras Públicas, o Govêrno Civil, a Biblioteca, a Junta Geral, a Agência do Banco de Portugal e a Direcção de Finanças ! Não falando na esquadra de polícia, na estação dos bombeiros e na imprensa do Govêrno Civil existentes no primeiro pavimento.

Actualmente está ocupado, no segundo pavimento, pela Biblioteca e Govêrno Civil, e no terceiro, pelas novas instalações do Museu.

Mas êste edifício está naturalmente indicado que seja apenas ocupado, todo êle, pela Biblioteca e pelo Museu.


(1) Por proposta nossa foi classificado Monumento Nacional por decreto de 31 de Julho de 1924.

Imagens de Viseu (5/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

IV - O ARCO OU PORTA DOS CAVALEIROS




Antes da demolição do pitoresco trecho do antigo convento das freiras de S. Bento, de que hoje, infelizmente, só resta a igreja com os seus admiráveis azulejos dos séc. XVII e XVIII, o trôço da rua, no prolongamento da rua Direita, que ia desde o arco do convento (1) até ao arco da antiga muralha, chamava-se rua dos Cavaleiros.

Daí a denominação da Porta; sendo certo que é mais conhecida, vulgarmente, pela simples designação de Arco, e tanto que a rua que se segue, para a parte exterior, em continuação da dos Cavaleiros, se chama ainda hoje rua do Arco.

Assim como a casa em que uma parte do Arco se apoia, e que pertenceu à família Albuquerque do Amaral Cardoso, tomou o nome de Casa do Arco, sendo até os seus primitivos donos conhecidos em todo o país pelos Albuquerques do Arco ou os Fídalgos do Arco (2).

É curioso notar que, ao contrário do que se deu com o Arco dos Melos, que tomou o nome dos donos da casa contígua ao arco, aqui é o arco que dá o nome à casa e até aos seus proprietários.

A Casa do Arco tornou-se célebre pelas festas que ali se deram, e pela vida faustosa que os seus donos faziam.

Tem na frontaria, por cima da porta principal, o brazão dos Albuquerques do Amaral Cardoso, bem como no cunhal que dá para a rua do Arco.

Sem ser, arquitectonicamente, digna de menção especial, é contudo elegante, nas suas linhas sóbrias, como aliás o são, em geral, todos os palacetes da sua época - séc. XVIII.

Nela se hospedaram o rei D. Luís e a raínha D. Maria Pia na única vez que visitaram Viseu, em Agôsto de 1882, por ocasião da inauguração do caminho de ferro da Beira Alta (3).

Tem o Arco na sua porta exterior, sobrepujan¬do-o, uma única inscrição em latim e idêntica à que existe na Porta do Soar, datada de 1646, e man¬dada colocar por D. João IV.

Superiormente, no vértice do ângulo da cortina da antiga muralha, está um nicho em forma de baldaquino, com colunas (séc. XVIII) que abriga uma imagem de Nossa Senhora da Graça, de pedra, e que deve datar dos fins do séc. XVI.

Em baixo vê-se um arco de volta inteira, aberto na espessura da muralha, no qual ultimamente se anichava um ferrador, e que devia ter sido, no seu início, uma fonte de mergulho.

Exteriormente é êste um dos trechos mais interessantes do velho burgo medieval, que todos os artistas vindos a Viseu muito apreciam, e que tem sido reproduzido por alguns, entre êles pelo notável aguarelista Alberto de Sousa e pelo ilustrador inglês W. Backer, de reputação mundial.


(1) Êste arco, idêntico a um que ainda existe hoje ligando o largo António José Pereira com a Rua Escura, dava ligação por baixo de parte do edifício do Convento, da rua Direita para o Largo das Freiras, que hoje, com outros terrenos, constitue o largo Mousinho de Albuquerque.

(2) Muita gente supõe que os personagens Tadeu de Albuquerque e sua filha Tereza, do livro de Camilo, «Amor de Perdição», teem qualquer parentesco com a família dos Albuquerques do Arco.
Nada mais erróneo. Nem desta nem doutra eram parentes, pela simples razão de que nunca existiram, segundo a opinião dos ilustres camilianistas, Dr. Sérgio de Castro e Alberto Pimentel. Vidê: Camilo Castelo Branco - por Sérgio de Castro e Notas sôbre o Amor de Perdição - por Alberto Pimentel.

(3) É curioso lembrar que António de Albuquerque do Amaral Cardoso, então senhor da Casa, ofereceu bizarramente o seu palácio para alojamento das pessoas reais, mas, como autêntico miguelista, saíu dêle enquanto D. Luís e D. Maria Pia o habitaram.
Fez as honras da casa seu irmão Fernando. oficial de cavalaria. há anos falecido.

Imagens de Viseu (4/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

III - PORTA DO SOAR OU ARCO DOS MELOS




A PORTA DO SOAR é uma das duas únicas portas que restam das sete que tinha a antiga muralha da cidade, que data do tempo de D. Afonso v de Portugal (1472).

Esta porta é mais conhecida, vulgarmente, pelo nome de Arco dos Melos, por estar contígua à casa do 1.° e único Conde de Santa Eulália - António Augusto de MeIo Castro e Abreu - (1) que tendo-a herdado dos seus antepassados - Melos e Castros de Figueiredo e Abreu - (2) ali viveu durante os meados do século XIX, com seu irmão Manuel, tendo falecido em 1886 sem descendência.

Essa casa, que foi herdada pela família Malafaia, tem magníficas salas com esplêndidos tectos de estilo genuinamente português, em caixotões, e um terraço construido sôbre a antiga muralha, donde se descobre um admirável panorama sôbre a cidade e arredores.

Mas, voltemos à Porta.

Tem exteriormente duas inscrições: uma do tempo de D. Afonso v, atestando ter sido êste rei que mandou cercar a nobre cidade de Viseu, e outra, dos meados do séc. XVII, em latim, em que D. João IV « promete o seu tributo à Imaculada Conceição de Maria, jurando a defeza do pecado original».

As armas de Portugal, de granito e da mesma época desta inscrição, sobrepujam a porta, vendo-se num nicho, ao canto, uma tosca imagem de pedra, representando Santo António.

Na parte interna e num outro nicho, a meio do arco, existe uma imagem de S. Francisco de Borja.
Esta porta, bem como a dos Cavaleiros, junto à rua do Arco, foram classificadas monumentos nacionais por Decreto de 31 de Dezembro de 1915.

(1) Mais tarde, depois de 1900, foi concedido o título de Conde de Santa Eulália ao escultor Aleixo de Queiroz Ribeiro, já falecido, que parentesco algum tinha com os Meios e Castros de Viseu.

(2) Existe no Museu de Grão Vasco uma preciosa peça de faiança, que certamente pertenceu aos ascendentes do Conde de Santa Eulália. É. uma travessa com o brasão dos Figueiredos e Melos, da fábrica do Rato, como indica a sua marca (F. R. T. BJ - fábrica do Rato - Tomás Bruneto - que foi o seu 1.° director. São raríssimas as peças de faiança brazonadas.

Imagens de Viseu (3/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

II - JANELA MANUELINA DA RUA DA CADEIA (1)




Esta janela, a mais notável das poucas que, pertencentes ao seu estilo, existem ainda em Viseu, é geminada, tendo ao alto o brasão dos Gomes de Abreu, por ter pertencido ao Cónego Pedro Gomes de Abreu, sepultado na antiga capela do Calvário, junto do claustro da Sé, vendo-se na face anterior do seu túmulo o mesmo brasão.

No campo do escudo esquartelado estão figurados, no 1º e 4º quartel, os símbolos heráldicos representativos dos Abreus (côtos d'asas) e no 2º e 3º os dos Soares de Albergaria (uma cruz flordelizada rodeada de cinco quinas).

É tradicional dizer-se que nesta casa nasceu D. Duarte.

É mais natural, porém, que assim não tivesse acontecido. Digo porquê: Ao tempo do nascimento do 2º filho de D. Filipa de Lencastre (1391), que depois foi o rei D. Duarte, ainda existia o antigo paço que era no local junto da Sé, aonde hoje são os claustros, e que só foi demolido para a edificação dêstes (1531-34) no reinado de D. João III (1521-1557), a pedido do bispo D. Miguel da Silva que governou o bispado de 1527 a 1547, seu contemporâneo e que era afilhado de seu pai D. Manuel.

Existindo portanto o paço, tudo leva a crer que a raínha, (que ao tempo estava com seu pai, o Duque de Lencastre, nas Caldas de Alafões, e que ao aproximar-se a ocasião do parto foi resolvido virem para Viseu, juntando-se-lhes aqui o Mestre de Aviz e D. Nuno) se instalasse com o seu séquito na habitação real.

É convicção nossa que tal versão se fundou no êrro cometido, e que veio de geração em geração, até nós, de se ter chamado ao escudo dos Gomes de Abreu o escudo de Aviz !

E isto por causa da cruz que nem mesmo é a de Aviz !

Oliveira Berardo caiu nesse deslise, pois também assim lhe chama no seu manuscrito « Noticia ou memoria descritiva da cidade de Viseu ».

Depois, outros, embora com menores responsabilidades se lhe seguiram, dando curso a tal êrro.
Existia o mesmo brasão no cunhal da capela profanada e há anos demolida, na travessa de S. Domingos e, ainda, nas ruínas de uma casa na Aguieira, por isso que a quinta de Santo Estêvam, que foi pertença dos Gomes de Abreu, se estendia até áquele lugar.

Ambos estes brasões, um de granito e outro de pedra de Ançã, foram oferecidos pelos seus respectivos proprietários (2) ao museu de Grão Vasco, aonde se encontram actualmente.

(1) Hoje é Rua de D. Duarte.

(2) Srs. Arnaldo de Menezes e António Martins.

Imagens de Viseu (2/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

I - O MONUMENTO AO BISPO DE VISEU
D. ANTONIO ALVES MARTINS




No antigo Largo de Santa Cristina, hoje Largo Alves Martins, admira-se o monumento erigido por subscrição popular àquêle que foi um venerando e bondoso prelado da diocese de Viseu: - D. António Alves Martins.

Êste monumento é obra do grande e consagrado escultor António T eixeira Lopes, que tem o seu nome ligado a inúmeras obras primas.

A figura do popular prelado está representada com a energia e rudeza própria do seu temperamento. É bem a figura máscula e atarracada, de antes quebrar que torcer, que Ramalho Ortigão, na rubrica da conhecida caricatura de Rafael Bordalo, no Album das Glórias, sintetisou em duas palavras : - Moralidade e marmeleiro.

Êste monumento foi inaugurado no dia 18 de Fevereiro de 1911, aniversário do nascimento do popular prelado, com a presença, por parte do Govêrno provisório, dos srs. General Correia Barrêto, ministro da Guerra, e Dr. António José de Almeida, ministro do Interior.

A figura em bronze do bispo de Viseu, assenta numa base de granito em cujas faces se vêem inscritos os seguintes dizeres:

«AO BISPO DE VISEU, D. ANTÔNIO AL VES MARTINS,
DEVOTADO LIBERAL, EVANGÉLICO»

«PRELADO E AUSTERO ESTADISTA - HOMENAGEM DE
SEUS ADMIRADORES - 1808 - 1908».

«NASCEU NA GRANJA DE ALIJÓ EM 18 .2.1808. ELEITO
DEPUTADO EM 1842. NOMEADO ENFERMEIRO-MÓR
DO HOSPITAL DE S. JOSÉ EM 1861. APRESENTADO
BISPO DE VISEU EM JULHO DE 1862. ENTRADA
SOLÉNE NESTA CIDADE EM 29 .1 . 1863. MINISTRO DO
REINO EM 1868 E EM 1810. FALECEU POBRE NO PAÇO
DE FONTÊLO, EM 5 .2.1882»

«A RELIGIÃO DEVE SER COMO O SAL NA COMIDA;
NEM MUITO NEM POUCO: SÓ O PRECISO»

«NA MINHA DIOCESE QUERO PADRES PARA AMAR A DEUS NA
PESSÔA DO PRÓXIMO; NÃO QUERO JESUITAS QUE VIVAM DE
EXPLORAR O PRÓXIMO EM NOME DE DEUS».

(D. António Alves Martins).

«PROTESTOU CONTRA A INSERÇÃO DO SEU NOME NUMA
MENSAGEM AO PAPA INFALÍVEL E REI EM 1867.
- CONDENADO POR LIBERAL A MORRER
FUSILADO NESTE LARGO EM 1834».

Imagens de Viseu (1/20)

por F. de Almeida Moreira, 1937

 
capa e contracapa

exemplar nº 464 de tiragem de 500

quinta-feira, junho 15, 2006

A Catedral de Viseu (9/9)

Separata da revista "Beira Alta", 1945

NOTAS FINAIS

por Alexandre Lucena e Vale

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UM RETRATO DE D. DIOGO ORTIZ ?

Esta fotografia é reprodução duma gravura do precioso códice da Biblioteca Municipal de Viseu que tem o nº 1858, um quase inconábulo, impresso em explêndido tipo gótico, em a muy nobre çidade de Lisboa, per Valeti Fernandes alemã e Johã pedro boõ homini de cremona aos XX dias de Julho Era de mil quinhentos e quatro annos, com o seguinte título: Cathecismo / pequeno da doutrina e instruição que os cristãos hãm / de creer o obrar para conseguir a benaventurança eterna / feito e copilado pello reverendíssimo señor dom Diogo / Ortiz bispo de cepta. Empremido com privilegio del Rey / nosso señor.

Quando em 1934 publicámos a biografia dêste notável prelado, notámos, supomos que pela primeira vez, serem idênticas a estampa dêste Catecismo Pequeno de D. Diogo 0rtiz e a da Gramática de Estevam Cavaleiro, de 1516, reproduzida na História da Literatura Portuguesa Ilustrada, Vol. I pág. 74 e no Instituto, número do centenário da Universidade, onde numa e noutra das publicações referidas vem acompanhada da seguinte legenda: «Professor Universitário com as insígnias doutorais» tendo apenas diferente os dizeres da fita ou pergaminho que, desenrolado, o anjo sustenta nas mãos.

Dissemos então que sendo a Gramática de Estevam Cavaleiro, de 1516, ou seja doze anos posterior ao Cathecismo de 1504, nenhuma dúvida poderia haver de que a figura nela contida deveria representar não um professor universitário, mas indiscutivelmente um bispo, presumivelmente o próprio D. Diogo Ortiz de Vilhegas.

Com um bispo a identificaram António Joaquim Anselmo em 1926 na Bibliografia das Obras Impressas em Portugal no século XVI e Inocêncio no Dicionário Bibliográfico.

O ilustre Director do Arquivo da Universidade de Coimbra. dr. Rocha Madahil, em carta que nos escrevia por volta de 1939, preferia ver na indumentária da figura mais a dum lente do que a dum bispo, acrescentando que o problema, sem dúvida curioso, só poderia ter solução capaz pelo exame pormenorizado das estampas do tempo, das nacionais e das provenientes do estrangeiro, donde julgava ser esta do Cathecismo de D. Diogo Ortiz.

O Professor Ernesto Soares, autor do inestimável estudo sôbre A gravura artística em Portugal, em correspondência que trocámos ao entrar no prelo o 2º volume do seu exaustivo trabalho ao mesmo tempo que nos reconhecia tôda a razão no levantar do problema, prometia de oportunamente dêle se ocupar com o interêsse que merecia.

Não podemos de momento averiguar se o problema por nós posto teve já ou não novo esclarecimento.

Daí a interrogativa da legenda que acompanha o suposto retrato do célebre prelado de Viseu e cosmógrafo de D. João II.

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D. MIGUEL DA SILVA

É dum opúsculo que sôbre êste notável prelado de Viseu, publicou em 1935 o conhecido lusófilo Guido Batelli, de parceria com o falecido escritor e diplomata português dr. Trindade Coelho, a fotografia do fresco de Villa Farnese.

Qual dos quatro cardiais que nela figuram é o célebre bispo de Viseu?

A identificação não seria difícil se um outro retrato do mesmo prelado, revelado por Maximiano Aragão em 1928, não houvesse perecido no incêndio que há anos destruiu parte da claustra beneditina de Santo Tirso, onde aquele saudoso investigador o vira em 1894. Ainda assim, afigura-se-nos ser a verdadeira identificação a que fazemos na respectiva legenda.

Contando da esquerda para a direita e do primeiro para o segundo plano, como é regra consagrada, D. Miguel da Silva vem na verdade a ser o que se apresenta à frente e à mão direita do observador.

Acresce que a despeito da enganadora semelhança que aparentam, de relance, as figuras do conjunto - encanecidos anciãos da côrte pontifícia, decorados com a mesma barba veneranda, revestidos das mesmas vestes prelatícias, cobertos com o mesmo canónico barrete - há na particular fisionomia de cada um, o traço inconfundível das almas naturalmente diferentes.

Federigo Zuccari, que os pintou, não era artista somenos. Pincel eminente do seu tempo não só em Florença e Roma, mas na Flandres, Holanda, Inglaterra e Espanha, coube-lhe a honra insígne de acabar algumas das obras incompletas de Miguel Angelo, e de ser, por votação unânime de seus confrades, o primeiro presidente da Academia de São Lucas.

De pintor de tão geral consagração é de supor portanto que soubesse imprimir às tintas da sua paleta de artista o tom psicológico dos cardeais retratados.

Isso nos induz a porfiar na hipótese de ser o Cardinale Viseo o da extrema direita.

Há no todo dessa figura, de cenho carregado, olhar enérgico, nariz grande de voluntarioso, um não sei quê que se casa à maravilha com o que a história nos diz do seu carácter forte e opiniatilo. Sôbre isso, toda essa fisionomia respira aquela austera nobreza e magestático aspeito que de comum revestem o grave semblante dos nossos históricos vultos de quinhentos - os Gamas, os Cabrais, os Albuquerques.

Mais do que as de nenhum outro, se nos afiguram bem portuguesas as feições altivas mas francas que formam essa máscara, todavia tocada de viril espiritualidade, de inteligência e direitura moral. No seu ar alevantado, de heril, de grand seigneur, não falta aquela distinção acolhedora e benevolente que o impoz à admiração e apreço da alta sociedade romana do seu tempo.

Acima de tudo porém, no seu olhar altivo e enérgico, mais de general do que de sacerdote, perpassa aquela vontade indomável que se não dobrou às próprias ameaças do seu Rei, e ousou escrever na hora critica do mais aceso da luta, aquelas palavras lendárias ou históricas, que são todavia a expressão do seu carácter: «Não quero».

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ESFRAGÍSTICA VISEENSE

Dos quatro sinetes da gravura um é o conhecido selo do bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas, constituído pelas armas direitas dos Ortizes e a célebre legenda

SGLVDIDACI EPISCOPI VISENSIS

Dizemos célebre porque erradamente lida pelos antigos investigadores ou curiosos de Viseu, levou-os a intercalar disparatadamente na série dos prelados diocesanos um suposto Soludidácio que nunca existira senão na sua indouta imaginação.

O dislate, como é sabido, foi denunciado pelo dr. Maximiano Aragão que, identificando o suposto O com o G que na verdade era, poude ler dêste modo o que afinal muito simplesmente lá estava: Sglu (abreviatura de sigilum) separado do substantivo próprio Didaci, ou seja - Selo de Diogo Bispo de Viseu.

Os restantes sêlos foram encontrados e desenhados pelo douto investigador dr. Manuel Alvelos, incansável estudioso do velho arquivo do Cabido de Viseu.

RESENHA DAS OBRAS DA SÉ

A tábua de efemérides das transformações da Sé(in A Catedral de Viseu (5/9) foi organizada sobre as notícias dos escritores viseenses indicados no texto e designadamente: Botelho Pereira, Leonardo de Sousa, Oliveira Berardo, Francisco Manuel Correia e Maximiano Aragão.

CAPELA DO SANTÍSSIMO

Já depois de composto o presente trabalho, se procedeu à remoção do respectivo retábulo, pondo-se a descoberto a parede respectiva na qual na verdade se acha ao centro praticada uma porta ogival de comunicação entre o transepto e a Capela de D. João Vicente ou do Calvário.
A desnudação da parede revelou ainda outros curiosos pormenores de construção e arquitectura cujo exame porém já não cabe nas ensanchas desta nota.

A Catedral de Viseu (8/9)

Separata da revista "Beira Alta", 1945

A CAPELA DO CALVÁRIO (3/3)

por Alexandre Lucena e Vale

No século XVI a capela, hoje do Santíssimo, tinha o seu altar igual aos que então decoravam cada tôpo das naves da Sé, incluída a do transepto, e foram substituídos, na grande vacância de 1639 a 1671, pelos de talha dourada actuais. O retábulo de cada um dêsses altares era constituído por um dos quadros monumentais de Grão Vasco, à parte o do altar-mor que tinha a série de catorze com a vida da Virgem e a infância de Jesus.

A capela do Santíssimo tinha também o seu, ou o S. Sebastião como erradamente se tem dito, ou o Calvário como pretendemos demonstrar. Na parede existiam vários túmulos com seus arcos-sólios, e a porta, já referida acima, de comunicação para a capela de D. João Vicente (1).

Por sua vez esta também não tinha a disposição que hoje apresenta. A entrada era, como dissemos, pela Capela do Santíssimo; no sítio da actual porta do claustro, então ainda por abrir, ficava o túmulo do pe. Gomes de Abreu; em frente dêste, onde de presente se encontra a chamada porta do sol, que dá saida para o eirado das trazeiras da Sé, ficava o túmulo do próprio bispo fundador, como tudo refere em suas Memórias, o Pe. Leonardo de Sousa (2).

No primeiro quartel do século XVII, o dr. Lourenço Leitão e sua mulher D. Ana Cardoso de Távora instituíram, como é sabido, a actual capela do Santíssimo a que vincularam certos bens, mediante o privilégio de nela terem túmulo perpétuo com exclusão de qualquer outra pessoa. (3)
Por motivo das proporções do novo retábulo (o actual) que veio a ocupar tôda a parede do tôpo do transepto, a primitiva porta de acesso à capela contígua de D. João Vicente teve de ser inutilizada, pelo que se procedeu à abertura de outra, que é a actual dos claustros. Mas porque aí se encontrava, como referimos, o túmulo do Cónego Pêro Gomes de Abreu, foi preciso removê-lo para onde de presente se encontra. Procedendo-se nessa mesma ocasião também à abertura da chamada porta do sol, onde então, como dissemos, era o túmulo de D. João Vicente, foi êste por idêntico motivo deslocado para o seu lugar actual junto do outro (4).

Nestas andas e bolandas, as arcas tumulares foram naturalmente destampadas por maior facilidade de arrasto e, presumivelmente, por qualquer motivo, esvaziadas das cinzas respectivas (5).

Ora se considerarmos que isto se passa, como dissemos, nos últimos anos do primeiro quartel do século XVII, precisamente a época atribuída (1610 a 1633 - dizem os cronistas) ao furto dos restos de D. João Vicente pelos Loios de Lisboa, fácil é de conjecturar a verdade dessa rocambolesca aventura.

O caso não tem hoje interêsse de maior é óbvio. . .

Se o referimos é apenas a talho de foice, da foice com que nos propomos de segar melhor e mais valioso trigo - o problema da determinação do lugar primitivo de duas das tábuas monumentais de Grão Vasco, o Calvário e S. Sebastião.

Ainda que todos os que até hoje se teem ocupado do assunto - e tantos são! - hajam aceitado sem reparos, para aquêle a capela que vimos estudando, a Capela de D. João Vicente ou Capela do Calvário, para o outro, a Capela do Santíssimo, podemos afirmar que viram indevidamente o problema e lhe erraram por isso a solução.

Expliquemos primeiramente a génese do êrro, que nisso está de algum modo o podermos justificá-lo.

A partir dos começos da segunda metade do século XVII, a posição dos quadros de Grão Vasco que haviam decorado até então os retábulos da Sé, é a seguinte: os catorze do altar-mór acham-se ou nas paredes laterais da mesma capela por cima do cadeiral, ou já na Sala do Cabido; O Calvário na Capela de D. João Vicente, no claustro; o S. Pedro, S. Sebastião, S. João e Pentecostes na sacristia grande de D. Jorge de Ataíde onde Rackzynski, Robinson, Bertaux e todos os mais os viram e discutiram.

Considerando isto, não foi difícil aos curiosos de Viseu e críticos de fora, de todos os tempos, reconstituir com fácil lógica a primitiva localização dos quadros, a anterior aos altares de talha dourada que o Cabido da vacância de 1639 a 1671 lhes preferiu: a série dos catorze do altar-mór no respectivo altar; o S. Pedro, o S. João e Pentecostes nos altares de sua respectiva invocação; S. Sebastião, por exclusão de partes, no actual altar do Santíssimo, a que por isso mesmo, e só por isso, se atribuiu a invocação anterior de S. Sebastião (6).

Quanto ao Calvário, não havendo mais lugar para êle nos cinco topos das naves, e uma vez que se encontrava em Capela à parte, a Capela de D. João Vicente que vimos estudando, aceitou-se ser ela o seu lugar de sempre. Para mais, o próprio manuscrito de Botelho Pereira, de 1630, escrito portanto em data ainda anterior à retirada dos outros para a sacristia, já o assinalava precisamente aí (7).

Não haveria pois que duvidar: o Calvário fôra pintado para a Capela de D. João Vicente, cada um dos outros para os altares referidos. O problema da primitiva localização parecia estar solucionado.

Esta a génese do êrro, aceito sem reparo até Rackzynski pelos curiosos de Viseu, e de Rackzynski até hoje por quantos do problema se abeiraram.

Todavia, a denunciá-lo, deveria, parece, erguer-se contra êle o próprio Calvário. Repugna, na verdade, admitir, embora até hoje tal reparo nunca se fizesse, que um quadro monumental como êsse, enredada composição de fundas perspectivas e sucessivos planos, figurando um aglomerado humano com vários vultos de tamanho natural, e formando todo êle um conjunto de intensa dramatização, transbordante de vida e movimento, - pudesse ter sido pintado para uma quadra de modestas proporções e tão precárias condições de luz! Acresce que, se não obstante o fôra, deveria então tê-lo sido para servir de retábulo ao respectivo altar. Ora êste, segundo o relato do Padre Leonardo de Sousa (8), encostava-se à parede em que se rasga a única janela da capela, o que exclui a hipótese de nêle poder ter estado qualquer quadro e muito mais a de, para semelhante lugar, o haver pintado um artista da envergadura de Grão Vasco. Tanto isto é assim que, onde afinal o quadro sempre esteve, ao que parece, foi no único sítio em que poderia ver-se, a mesma parede dos túmulos que aliás tapava em grande parte, o que por sua vez denuncia ser a sua colocação aí apenas determinada por uma necessidade ocasional de arrumação e mais nada.

Esta verdade, que mal se compreende não acudisse ao espírito de ninguém, poderia tê-la alcançado o dr. Maximiano Aragão quando contradisse, e bem, a hipótese formulada pelo autor do último volume do Portugal Antigo e Moderno de que, chamando-se a Capela de D. Gonçalo Pinheiro, Capela da Cruz, talvez o Calvário houvesse sido encomendado para ela e aí houvesse estado antes de passar à Capela contígua de D. João Vicente.

Escreveu então, o dr. Aragão, que tendo D. Gonçalo Pinheiro tomado posse da diocese quatro anos depois do falecimento de Grão Vasco, a hipótese ou conjectura do Dr. Pedro Ferreira era absolutamente destituída de possibilidades. E acrescentou - conforme a lição de Botelho Pereira e do pe. Leonardo de Sousa que par passu seguiu neste seu livro:

O que êste bispo mandou fazer foi reedificar a capela que se denominava de S. Sebastião e mudar-lhe o nome para o de Vera Cruz (9).

Se ao discutir assim a localização inicial do Calvário, houvesse considerado que no local da Capela da Cruz, demorara anteriormente uma outra sob a invocação de S. Sebastião, poderia ter-se pôsto a hipótese de haver sido essa capela o local primitivo do quadro de Grão Vasco que representa êsse santo.

Se o fizera, arrumado no seu lugar próprio o quadro de S. Sebastião, fácil lhe seria arrumar por sua vez no seu, o deslocado quadro do Calvário

O que é, porém, ainda mais estranho é que não reparassem, nem êle nem quantos trataram tal assunto, que a atribuição do S. Sebastião à capela dos claustros é feita já pelo próprio
Botelho Pereira, precisamente no passo do seu manuscrito tantas vezes e por tanta gente citado como a mais antiga e de algum modo a única fonte da autoria e localização dos quadros de Grão Vasco.

Vale a pena transcrevê-lo porque, embora inúmeras vezes haja sido referido, sobejamente mostra que, de tantos escritores que o citaram, poucos o leram de certo, nem de outro se compreende que nêle não atentassem. . .

É no capitulo 4º, sôbre o bispo D. Fernando Gonçalves de Miranda (1487-1491) que Botelho Pereira, ao referir ter sido êste prelado quem mandara fazer o antigo retábulo do altar-mór, acrescenta:

Raro e eminente devia ser o Pintor das imagens dêle, que não só parecem de vulto mas vivos se nos representam, enganando a vista, como às aves o cacho de Apeles ou a êle a toalha de Zeuxis. Vasco Fernandes, respondeu Lemano, se chamava o autor de tão maravilhosas pinturas o qual tâmbém o foi dos Colaterais de S. Pedro e S. João Batista, altar privilegiado tôdas as segundas feiras, bem grandíssimo para as almas do Purgatório.

Também pintou o de Santa Ana e de S. Sebastião dos Claustros, e o de Jesus que é a Capela do bispo D. João o Protector que averiguadamente está tido por santo. E nela como já disse está sepultado. . .

Dêste passo dos Diálogos, única fonte informativa valiosissima porque quási coeva de Grão Vasco - da autoria dos quadros monumentais de Viseu, se tira neste ponto inequivocamente o seguinte:

1º Botelho Pereira diz, indirectamente embora, que o S. Sebastião esteve nos Claustros - S. Sebastião dos Claustros, resa o manuscrito ;

2º Botelho Pereira não diz que o Calvário tivesse sido pintado para a Capela de D. João Vicente (o Protector dos Loios) mas apenas o refere como estando aí ao tempo em que escrevia (1630) o que, é óbvio, não exclui a conjectura de haver estado inicialmente noutra parte.

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Nestas circunstâncias, verificado ter havido uma capela de S. Sebastião nos claustros, verificado que ao tempo de Botelho Pereira ainda o respectivo quadro lá estava ou se retirara havia tão pouco tempo que continuava a designar-se como tal - S. Sebastião dos Claustros - é lícito afirmar que o primitivo lugar dessa admirável tábua de Vasco Fernandes, antes de ingressar na Sacristia, foi essa substituída capela da sua invocação e não a actual do Santíssimo como erradamente se tem dito.

Vago assim êste tôpo do transepto, fácil é de ver ter sido nêle o primitivo lugar do Calvário, que só as obras acima referidas, de colocação do actual retábulo do Santíssimo, forçaram a retirar para a capela anexa de D. João Vicente, onde Botelho Pereira o assinala em 1630 e onde permaneceu três séculos até 1911, crismando a Capela em Capela do Calvário e induzindo em êrro quantos por êle se interessaram.

Isto é insofismavelmente assim: manuscritos, datas, lógica, tudo apoditicamente o comprova. Mas quando assim não fôsse, um outro documento, não menos valioso nem menos concludente, embora até hoje não considerado, se nos oferecia terminante: os próprios quadros!

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Cada um dêles tem em si o certificado autêntico da sua primitiva localização, da sua naturalidade poderíamos dizer - a luz. Desde o S. Pedro, feito para o absidíolo da nave da Epístola, ao S. João da nave do Evangelho, cada uma das tábuas de Grão Vasco tem naturalmente aquela que recebia no seu respectivo retábulo.

Pois bem: na capela do Santíssimo a luz cai de cima e da esquerda; no quadro de S. Sebastião vem nitidamente do lado oposto!

Conseqüentemente o próprio quadro confirma tudo o que dissemos: o S. Sebastião nunca foi o quadro do primitivo retábulo da actual Capela do Santíssimo.

Temos assim que, até por êste único motivo, essa capela deveria ser, por exclusão de partes, o primitivo lugar do Calvário, afinal o seu lugar próprio, pela monumentalidade da sua traça e pelas largas possibilidades de observação - toda a nave do transepto; mais que tudo - agora sim! - pela perfeitissima coincidência da luz, a própria e a da capela!

Também no Calvário a luz é o certificado da sua naturalidade - a primitiva capela do Santíssimo.
Ai o vemos em espírito, em tôda a pujança artística que lhe imprimiu o génio incomparável de Grão Vasco, revestindo o fundo frio e sombrio do tôpo do transepto, com o colorido das suas tintas vivas, quentes e polícromas, a emprestar à nave as perspectivas novas dos seus horizontes de dilatadas lonjuras, e a dar a todo o templo, silencioso e calmo, a nota vibrante do drama intenso e ruidoso da tarde divina do Gólgota (10).

NOTAS

(1) Alguns desses arcos ainda hoje podem ver-se, abrindo os armários de arrecadação que se encontram detrás do actual retábulo.
Nas obras de restauro a que se vem procedendo na Sé, deve transformar-se a Capela de S. Pedro em Capela do Santíssimo, removendo da actual o anacrónico e destoante retábulo do século XVII, restabelecendo a comunicação com a capela de D. João Vicente e pondo a descoberto os túmulos e arcos-sólios da respectiva parede. Sabemos que para tal obra que se impõe para valorizacão da Sé, a Direcção dos M. Nacionais encontrára o melhor assentimento da Autoridade Eclesiástica.

(2) Memórias - Vol II, pág. 269.

(3) A instituição foi, adiante, reduzida a documento lavrado nas notas do tabelião Francisco da Costa Homem (antiga e nobre familia dos Costa Homem de Viseu) e em 1629 cofirmado pela Santa Sé.
Não obstante, o túmulo, que é o que serve hoje de credência do Santíssimo, do lado da Epistola, tem servido de urna a quantos ossos têm sido tirados dos outros túmulos da Sé!

(4) Memórias – loc. cit.

(5) Como sucedeu a quási todos os mais túmulos da Sé, os ossos devem ter entrado na arca da capela do Santíssimo.

(6) Salvo erro, foi o Portugal Antigo e Moderno quem primeiro o fez. De então para cá, a atribuição continuou…

(7) Diálogos – cap. 4º.

(8) Memórias – Vol. II – pág. 214.

(9) VISEU – Instituições Religiosas – 1928 – pág. 428.

(10) Pode acrescentar-se que a luz do S. Sebastião, vinda da direita do observador, denuncia precisamente haver sido feito para a actual capela de tércia, ou antida de sua invocação, pois com semelhante luz, a não ser êsse o seu lugar, só poderia sê-lo o do altar de S. Pedro. Êste é claro que não foi.

domingo, junho 11, 2006

A Catedral de Viseu (7/9)

Separata da revista "Beira Alta", 1945

A CAPELA DO CALVÁRIO (2/3)

por Alexandre Lucena e Vale

A abóbada, de nervuras toreadas, repousa em quatro colunas cilíndricas adossadas na parede e rematadas em curiosissimos capitéis, um dos quais representa manifestamente a Annunciação, ingénuo conjunto de dois ícones de desenho e trabalho muito rudimentares.

Dos restantes, um é constituído por um vaso e vários motivos fitomórficos, entres êles a consagrada espiga de trigo, símbolo da eucaristia; outro, por um busto humano, a cujos ouvidos falam dum lado a luxúria, figurada na serpente, e de outro a pureza, simbolizada numa flor de açucena; o último, de mais difícil interpretação, poderá exprimir o mesmo pensamento, a virtude e o pecado, figurado êste nas serpentes e cabeça de hiena, aquela no motivo fitomórfico da direita, se é que nas duas serpes, também símbolo da prudência, não há qualquer alusão ao múnus pastoraI do bispo fundador (1).

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Mas o elemento principal, predominante no conjunto, é constituído por dois túmulos que ocupam tôda a parede de sul. Um, o da direita, muito posterior, com um esquartelado de Abreu e Albergaria, pertence, como reza a própria cartela da tampa feral, ao cónego Pero Gomes de Abreu, o fundador do vínculo de Santo Estêvam e da Casa da Tôrre da rua da Cadeia, de quem nestas mesmas páginas já tratámos desenvolvidamente (2).

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O outro, o da esquerda, é do instituidor da Capela, o bispo D. João Vicente.

É uma arca granítica, assente directamente no pavimento e encaixada na espessura da parede, sob um arco sólio de meio ponto com larga moldura toreada, guarnecida de bolas e aparatosa franja de pendentes flores de liz estilizadas.

O frontal é decorado com três escudos, sem indicação dos metais: o do centro com três disciplinas postas em pala; os dos lados, repetidos, cada um com duas chaves direitas de palhetões afrontados.

Na tampa, a jacente do bispo, talhada no duro granito da região, com a cabeça mitrada repousando, magestosa, em duas almofadas sobrepostas, o busto revestido de ampla casula
gótica, as mãos cruzadas na posição consagrada, segurando apertadamente contra o peito o simbólico báculo, cuja curva, de vasa da talha, se apoia no cabeçal, formando um pormenor de grande efeito decorativo.

Todo o conjunto tem nobreza e magestade; e, suposto o trabalho do canteiro não haja conseguido vencer nas pregas dos panejamentos e na geral modulação da figura, a rigidez artificiosa dum ingénuo convencionalismo, a verdade é que esta esquecida e quási ignorada escultura é bem digna do interêsse que até hoje se lhe não deu.

De mais, com a de Fernão Gomes Goes, de Oliveira do Conde, e a do Conde de Barcelos, filho de D. Diniz, em Sao João de Tarouca, é, salvo êrro, uma das três únicas jacentes que existem na região beirã, sáfara de tais espécies certamente pela inversa da lei de Prosper Merimée: onde, para construir haja pedra fácil de lavrar, aí fará progressos a escultura.

E se considerarmos que, tendo falecido D. João Vicente em 1463, já a êsse tempo a estatuária tumular, praticada em Portugal desde o século XIII (até fins do século XII eram proibidos os enterramentos nas igrejas) havia atingido qualidades definitivas (3), não será ousado supor ser o autor do moimento, ignorado artífice local, geitoso mestre canteiro com sua prática de lavrante nas oficinas de Coimbra ou nas obras da Batalha.

Estudemos agora a lição heráldica dos escudos do túmulo.

Não vale a pena referir o êrro segundo o qual, parece, durante muito tempo, a gente de Viseu identificou os laterais com armas de família do Bispo D. João Chaves, a quem, em sua ignorância lògicamente, também atribuía o túmulo!. . .

Êrro imperdoável e só compreensível pelo geral desconhecimento que até há pouco se tinha das mais elementares noções de heráldica e arqueologia.

Se as linhas e feição do monumento impediam que se atribuísse êste a quem vivera um século depois, em plena Renascença, a conjectura heráldica ainda mais imperdoável se apresenta: as chaves das armas dos Chaves são cinco e não duas, são impostas em santor e não em pala, têm palhetões montantes e não caídos como nos escudos do túmulo.

Botelho Pereira, contradizendo já em 1630, a versão corrente de serem tais brasões as armas de D. João Chaves, escrevia que D. João Vicente tomara por armas as da Igreja, as duas chaves, por ser médico do Papa (...) a insígnia das disciplinas é a sua a qual se acha também num cálice dourado que êle deu à Sé (4).

Teríamos assim, segundo o autor dos Diálogos Morais, que as armas com as chaves seriam as do Papa, as das disciplinas a insígnia do bispo. Errando quanto àquelas por não serem tais as armas pontifícias, podia induzir em êrro quanto às segundas, por indevidamente se supor serem elas a expressão heráldica dos apelidos Rodrigues, Maceira ou Ponce que por seus pais pertenciam a D. João Vicente (5).

Um século depois, em 1768, o Padre Leonardo de Sousa, referindo ainda a confusão com o bispo D. João Chaves, escrevia com mais verdade que D. João Vicente tomara por armas as chaves para com isso mostrar o domínio espiritual que tivera nas duas igrejas de quem foi prelado Diocesano; quanto às disciplinas, suposto não serem armas de sua família ilustre o foram sempre de sua grande penitência (6).

Segundo a liçao do autor das Memórias, os escudos da arca tumular seriam portanto meras composições de fantasia, alusivas aos dois aspectos fundamentais da vida de D. João Vicente: a congregação e o episcopado.

Suposto tal interpretação seja absolutamente aceitável e, sem mais reservas, a hajam divulgado em suas publicações os posteriores escritores viseenses, uma outra hipótese se poderia pôr - a de serem tais escudos as armas da Congregação dos Loios de que o bispo fôra, como dissemos, fundador. Não tem, porém, fundamento tal suposição.

A congregação dos Frades Lóios, como vulgarmente foi conhecida em Portugal a Ordem dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista, fundada na igreja de Vilar de Frades, não teve armas próprias de comunidade, e se usou de qualquer insígnia ou emblema simbólico, parece ter sido a águia do Apóstolo seu patrono, como bem conclúi a êste respeito o nosso ilustre colaborador e erudito autor do valioso e notável estudo sôbre Pelourinhos que Beira Alta vem publicando (7).

Em conclusão: como escreveu o Padre Leonardo de Sousa, os escudos da arca tumular de D. João Vicente contêm apenas composições de fantasia, aludindo as disciplinas à austera penitência do congregado, e as chaves aos dois governos episcopais de Lamego e Viseu (8).

Consideremos agora as transformações operadas nas primeiras décadas do século XVII na capela hoje do Santíssimo, e as que, por via destas. veio por sua vez a sofrer a própria capela de D. João Vicente. Têm mais interêsse do que parece. . .

É que se elas explicam de algum modo a história da violação do túmulo de D. João Vicente pelos Loios seus confrades que, movidos de devoção às suas cinzas, aqui as teriam vindo muito subrepticiamente tirar (9), prendem-se, com mais interêsse ainda, ao problema da primitiva localização dos quadros de Vasco Fernandes, Calvário e S. Sebastião, que nos propomos esclarecer.

NOTAS

(1) Dictionnaire du Symbolsme verb: Epi e Serpent – Mundus Symbolicus de Philipi Picinelli - pág. 487.

(2) Viseu Antigo in Beira Alta - Vol I - Fasc. III - pág. 125

(3) Estatuária Lapidar – A. Gonçalves – pág. 13

(4) Diálogos Morais - loc. cit.

(5) Ae armas dos Rodrigues são : escudo lisonjado, de prata e de veirado de oiro e vermelho. de cinco traços em banda e cinco em contrabanda; as dos Maceira, partindo em pala: 1º de prata com duas flores-de-liz de azul uma sobre a outra; 2º também de prata com meia águia de vermelho estendida, armada de negro, movente de partição; as dos Ponces: escudo partido, sendo o 1º de prata com um leão de vermelho, e o segundo de oiro com 4 palas de vermelho; bordadura de vermelho, carregada de oito escudetes de oiro, cada escudete com uma faxa ele azul.

(6) Memórias - Vol. II - pág. 268.

(7) Em resposta à pregunta que em carta dirigimos ao distinto escritor e investigador, Exmo Sr. Guedes Real, sobre se tinha noticia de que a Congregação dos Loios tivesse tido armas de comunidade, recebemos do ilustre heraldista amável resposta de que trasladamos, com a devida vénia, o que segue:

“Nada encontro que se refira a um brasão de armas por esta Congregação usado, ao contrário do que sucede, por exemplo, com as ordens religiosas do Carmo (Carmelitas), S. Francisco (Franciscanos), de Cister (Bernardos), etc., cujas insígnias heráldicas todos nós - os que nos dedicamos ao estudo destas antiqualhas - perfeitamente conhecemos.

Como é sabido, foi em geral à vida, obras e milagres dos Santos fundadores dessas Ordens ou seus patronos que se foram buscar os símbolos constitutivos dessas armas.

Ora Santo Eloi, segundo reza a História Sagrada, foi tesoureiro de Clotário II e de Dagoberto, seu principal ministro, depois bispo de Noyon (588-659), e ourives exímio. A iconografia dêste Santo apresenta-no-lo, ora ferrando um boi com uma perna partida (arte italiana) *, ora sentado em frente da banca de trabalho, no seu mister de cinzelador, rodeado por figuras histórico-religiosas dêsse tempo (arte francesa). Nenhum emblema ou insígnia se destaca nos retábulos ou panéis em que pudéssemos ir filiar as armas dos religiosos que sob a sua invocação se congregaram.
Posta de parte esta pista, vejamos agora mais própriamente o que se repor¬ta à Congregação de Santo Eloi. Dos 7 conventos que possuiram, o principal e mais importante foi naturalmente o de Lisboa. Mas tiveram também os de Vilar, Xabre¬gas (arredores de Lisboa), Évora.,Arraiolos, Feira e Pôrto, tôas, estas casas conhe¬cidas como «Conventos dos Lóios» (não de Santo Eloi).

Os Loios não eram cónegos regrantes, mas sim cónegos seculares de S. João Evangelista e dedicavam-se sobretudo a obras de beneficência, em especial ao tratamento de doentes, pelo que, em certa época, e dado o seu carácter secular lhes foi confiada a administração de hospitais, como os de Coimbra e das Caldas, antes do estabelecimento das Misericórdias, onde êles exerciam a sua actividade cuidando desveladamente dos enfermos. Por tal obra se tornaram conhecidos e simpáticos aos humildes e aos grandes.

O nome de “Loios” lhes proveio precisamente do nome do Santo – ELOI - sob cuja evocação a sua principal Casa, a de Lisboa, havia sido fundada e por que foi mais conhecida. De “Eloi” se fez a palavra “Eloios” ou por aférese da primeira silaba, simplesmente “Loios”. Eu perfilho esta opinião, porque é muito natural que se lhes chamassem «Eloios» ou «Loios».

E nada mais adiantaremos quanto a Santo Eloi e «Loios».

E com referência às armas desta Congregação? Lá vamos agora.

Verificado, com o acima exposto, que Santo Eloi não foi o fundador da Congregação nem na sua organização interferiu, voltemo-nos para o Apóstolo S. João Evangelista...

Era natural que as insígnias da Congregação fossem as de S. João Evangelista. Foram-no, de facto? Estou presuadido que sim, como consequência do que passo a expôr.

Todos os quatro Evangelistas tiveram o seu emblema próprio. O de S. João era:

Uma águia de pé, com as asas abertas,
a cabeça nimbada pela glória da santidade.


(o que, em linguagem heráldica, se chama «uma águia revoante»).

Desde remotos tempos que êste emblema nos aparece junto do Santo, ou representando-o. Veja-se, por exemplo, os símbolos dos Evangelistas no «Commentário ao Apocalypse de Lorvão”, existente no Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo e o Manuscrito da Biblioteca Real de Bruxelas, do IX ou X século, representado em «Les Arts au Moyen Age et à l’époque de la Renaissance» por P. Lacroix. A arquitectura ou a escultura não nos auxilia nêste caso. A Congregação dos Cónegos de S. João Evangelista (Loios) não teve em Portugal a expansão que
tiveram as Ordens Religiosas, como os Franciscanos, os Dominicanos, os Beneditinos, etc. Assim,pouco nos resta das suas casas conventuais. A de Lisboa, que o terramoto de 1755, parcialmente arrazou. Encontrava-se em reconstrução quando foram extintas as Ordens Religiosas em 1833. Hoje é quartel da Guarda Republicana e nada nos faculta, do ponto de vista iconográfico. que contribua paro o esclarecimento do nosso problema. O convento de Xabregas, transformado há tempos em fábrica de bolacha, edifício hoje incaracterístico, encontra-se nas mesmas condições. O de Arraiolos, hoje quinta particular, também nada nos apresenta digno de nota para o estudo das armas dos Loios. Mas na igreja dos Loios em Évora, lembro-me de ter visto há anos, uma janela, numa das capelas, em cujo fastígio, entre volutas e fogaréus (época de D. Maria I ?), avulta ao centro do tímpano, uma águia de pé e de frente, com as asas abertas. O mesmo símbolo, portanto, acima referido. - Quanto às casas dos Loios da Feira, de Vilar e do Porto. nunca as vi nem conheço. Poderá ser que nalgumas delas se encontre a resolução da incógnita. . .

Como disse, eu estou persuadido que foi êste o símbolo adoptado por estes religiosos, muito embora nunca tenha visto a sua representação num escudo ou brasão de armas, mas unicamente, como emblema isolado, em geral destacado de qualquer representação ou conjunto heráldico.

A corroborar a minha suposição, devo acrescentar que na obra do Padre Francisco de Santa Maria, - «O CEO ABERTO NA TERRA» - vê-se, no rosto do livro, uma estampa alegórica. tendo ao centro o Ceu iluminado, donde dardejam raios de luz sobre a parte inferior da composição. À esquerda, sôbre uma peanha, ergue-se a figura de S. João Evange1ista - o patrono da Congregação dos Loios - tendo por baixo a divisa: S. IOANNES EVANGELIST. O Santo tem uma pena na mão direita e apresenta-se em atitude beatífica, junto a uma águia, de pé, que o seu corpo parcialmente encobre, e cujas asas abertas se podem ainda observar. Um pouco mais abaixo da peanha, outra águia em idêntica compostura, mas pisando uma fita legendada, com os seguintes dizeres: SUB UMBRA ALARUM TUARAM PROTEGE ME. Será preciso mais para crer que era êste o símbolo da Congregação dos Loios?»

* Santo Eloi é o patrono dos ferreiros, dos ferradores e, duma forma geral, de todos os artistas que manobram o martelo.

(8) O Ceo Aberto na Terra, pág. 598 confirma o exposto a par de algumas fantasias como a do túmulo ser de mármore...

(9) Memorias - Pe. Leonardo de Sousa - fls. 273
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